Sobre pavões e balões

Pavão

Por Ronaldo Souza

Como é difícil construir um nome.

Não é fácil.

Pode parecer que hoje é mais fácil.

Talvez até seja.

Afinal, estamos na era da comunicação.

E para muitos, comunicação virou sinônimo de marketing pessoal.

Cada vez mais fácil, escancarado e…

“Às favas com os escrúpulos de consciência”.

Disse uma certa vez Jarbas Passarinho.

É por aí.

E as redes sociais?

Terreno “ideal” para isso.

Casos e mais casos clínicos postados todos os dias.

Um desfile sem fim.

O ego?

Inflado.

Lá em cima.

Como um balão.

Não consigo lembrar de ter visto postagens mostrando casos clínicos concluídos, com acompanhamento radiográfico do paciente e cura da lesão periapical.

Como mostrar se acabaram de ser feitos?

O caso acabou de ser feito e já está no facebook, Instagram…

Às vezes dá a impressão de que o paciente ainda nem saiu do consultório.

“Olha, esse caso acabou de sair do forno, terminei agora. Sei que não está muito bonito, foi final de dia, já estava cansado, mas acho que dá pra quebrar o galho”.

E aí vem a pergunta que já sabe das respostas.

“O que vocês acham?” Podem criticar.

Elogio da carência

Trezentas mil curtições!

– Excelência em endodontia
– Professor, parabéns, o senhor é a lima de ouro
– Nunca vi tanta competência e tanta humildade juntas
– Vindo de você, só podia esperar toda essa competência
– Maravilha, como é que eu faço para ter um extravasamento desse?

E por aí vai.

Nesses pedidos de elogio mal disfarçados de humildade está expressa a necessidade de reconhecimento.

Ou será imperceptível uma coisa tão clara?

Não deveria haver perdão para a humildade hipócrita que se traduz em modéstia e provoca elogios.

Ainda que desfile pelos melhores salões, sua falsidade é tola e beira o ridículo.

Talvez por isso desfila pelos melhores salões.

É insuportável.

Erasmo de Rotterdam enalteceu o poder da retórica no seu livro “Elogio da Loucura”.

Tornou-se um clássico da literatura universal e como tal exerceu grande influência, como por exemplo na adoxografia.

Adoxografia é o enaltecimento desmerecido sobre algo ou alguém; elogio imerecido.

É a “arte” de se fazer o elogio imerecido de pessoas ou coisas sem valor, pessoas vulgares.

Elogiar a carência de reconhecimento é uma forma de perpetuar a humildade hipócrita.

Elogiar a carência é também uma forma de perpetuar a pobreza mental.

E há sempre um preço a pagar.

Lembremos Thomas Fuller:

“Elogios tornam os bons melhores e os maus piores”.

Há nesse movimento uma coisa ao mesmo tempo interessante e preocupante.

Alguns casos postados, todos com extravasamento (“surplus”), veem acompanhados, como já comentei, de 300 mil curtições.

Parabéns.

Aí eu olho para “dentro” dos canais, onde a obturação deveria estar, e não a vejo.

Procuro.

Cadê ela?

Sabe onde está?

No periápice.

Às vezes tem mais fora do que dentro.

Obturações cheias de vazios

Você acha que exagero um pouco?

Claro que exagero.

É para chamar a atenção e “mostrar” que não estão percebendo que algumas obturações estão lá, nos tecidos periapicais, como manda o figurino (deles), mas cá, dentro do canal, elas apresentam evidentes falhas de preenchimento.

Obturações vazias

Exibem as obturações sem perceber as diferenças de radiopacidade que existem nelas.

Exibem espirros da obturação para os tecidos periapicais como prova da qualidade da obturação.

E encantam o mundo.

Sabe o que as diferenças de radiopacidade estão doidinhas pra dizer?

Que não há homogeneidade na obturação!!!

Se não há homogeneidade é porque ela não está preenchendo igualmente o canal.

Se não está igualmente preenchendo o canal é porque tem um pouquinho mais aqui, um pouquinho menos ali, um pouquinho mais cá, um pouquinho menos acolá…

Naquele ponto em que a radiopacidade é menor faltou um pouco de guta percha, naquele outro faltou um pouco de cimento, mais adiante um pouquinho de um e do outro.

Vamos lá.

Você concorda comigo se eu disser que onde tem um pouco menos de obturação significa que ali não está tão bem preenchido?

Se não está tão bem preenchido, selou bem?

Concorda comigo se eu disser que onde a obturação não selou tão bem não está vedando hermeticamente?

Concorda comigo se eu disser que, diante do exposto, o extravasamento de material obturador não é sinônimo de vedamento hermético?

O profissional realmente competente e sensato sabe que, mesmo com todas as facilidades de comunicação, redes sociais, postagem em tudo quanto é lugar, o trabalho que não for de fato bem feito não deverá ter vida longa.

O protesista, clínico geral, periodontista… não vão ficar indicando sempre só porque você faz tudo rapidinho e está “aparecendo”.

Com o tempo deverão perceber que os casos do simplista que faz tudo rapidinho e simplesinho não estão dando muito certo.

Deixarão de encaminhar seus pacientes.

Por uma razão bem simples.

A indicação do seu nome partiu deles. Dando errado e precisando retratar ou operar, os pacientes irão se aborrecer também com quem indicou.

Sem falar que, ao começar a ter que remover as próteses que fez por trabalhar confiando no “seu canal”, o profissional que lhe indicou também terá prejuízo financeiro.

E aí, prevalecerá o antigo e famoso boca-a-boca.

– Ah, agora tô mandando meus pacientes pra fulano.

Balão

Mais cedo falei de balão.

Pra que fui falar?

Passei o resto do texto pensando nas noites de São João da infância, vivida na minha querida Juazeiro (BA).

Inesquecíveis.

Meu pai comprava muitos vulcões e eu ficava maravilhado com aquilo tudo.

E os balões?

Subiam, subiam, subiam…

Meu Deus, como era lindo!

Eu me encantava, mesmo sabendo da frustração por vir, porque logo em seguida eu os via cair.

Sem saber, estava aprendendo com eles a efemeridade das coisas.

Aprendi a ver e admirar a beleza do efêmero.

Mas também aprendi sobre a desilusão que ele pode trazer.

Como é difícil construir um nome.

Um nome que pode se tornar um balão de noite de São João.

Fugaz.